23 de ago de 2011

CRITICA DO ESPETACULO Por Rodolfo Lima para o site Mix Brasil

O conto “Dama da Noite” é o mais popular do autor Caio Fernando Abreu (1948-1996), isso dadas as inúmeras montagens teatrais a partir da história. Um personagem narra suas angústias, medos, aflições e visão de mundo, sem o menor filtro ou preocupação de parecer agradável. Se expõe como uma ferida aberta.

A história é tão polêmica que divide opiniões: há quem diga que seja um homem narrando, outros apostam numa mulher, alguns numa drag decadente e a própria Claudia Wonder me disse um dia que o conto havia sido inspirado nela e seria para ela. Polêmicas à parte, a cidade de Santos oferece a versão mais agressiva de todas as damas da noite já vista por esse que vos escreve.

Luiz Fernando Almeida é a Dama da vez. Toda de negro, fã da banda Kiss. Altérrima, e darkérrima. Quando surge não se sabe ser um urubu ou um gavião. Metáforas para exemplificar as atitudes dessa dama de cheiro enjoativo e que mata. Sim, a personagem criada por Almeida é capaz disso. Na primeira olhada você não tem dúvidas. Todo o visual compõe uma figura violenta, agressiva e beirando a insanidade. Não sabemos se é um gavião: poderoso, majestoso, violento apenas quando necessário e que sabe de todo o seu potencial ou um urubu, pronto a chafurdar na sua carniça no menor descuido. Se sabe inferior, mas não aceita sua posição, se rebele, agride, se debate, tenta a seu modo sobreviver.

A direção de André Leahun potencializa o corpo do ator em movimentos grotescos e ríspidos (ela vai gritar ou me morder, não se sabe), mas em dado momento, tudo parece muito sujo. Nem sempre corpo, voz e música ao mesmo tempo resultam numa boa cena. E há um abuso desses momentos, o que acaba atrapalhando na recepção do texto. Ele sai jogado da boca do ator e nem sempre essa despretensão é intencional.

A Dama da Noite de Luiz está ferida como um bicho, se acua como uma cadela em baixo da mesa e é capaz de intimidar quem a desafiar. Há diversos momentos em que vemos o ator tentando impactar a plateia com sua pele suada e o tamanho do seu corpo. No cenário de Daniela Bevervanso, o ator parece maior do que já é.

“Preto absorve vibração negativa”, a personagem explica em certo momento e é quase um disparate ela viver num “puteiro” todo branco (branco reflete), aumenta ainda mais o deslocamento social da personagem, mas soa mais como uma gafe cenográfica, já que nas paredes toda branca são projetadas as fotos e imagens de Gabriela Mangieri. É inóspito o lugar. Quarto de casa? De hospital?

Luis potencializa os termos “maldita” e “pestilenta”. Sim, acreditamos que ela é capaz de nos poluir, nos contaminar, afinal sua Dama da noite é escrota o suficiente para destruir sem dó o seu opressor. É por imprimir uma marca tão violenta de sua personagem, que não cabe o tom dramático do final. Não, a personagem do ator não é uma criança assustada, que se recolhe com o clarear do dia. Parece mais um animal raivoso a vagar pelas ruas à procura de consolo e distração, mas sem mostrar a menor vulnerabilidade.

O deboche do ator e de sua personagem não pode ser deixado de lado, a fragilidade não combina com sua composição e em alguns momentos – como o final – faz falta toda a sua descrença. É como se sua Dama da Noite só tivesse o lado B, não há lado A. A trilha sonora que inclui Cazuza, Angela Ro Ro e Renato Russo é acertada quando ouvimos de fundo um som que pode ser da cabeça da personagem, como se fosse uma dor de latejante, uma inquietação. Mas o entra e sai da música, mata qualquer possibilidade de associação direta com os conflitos internos da personagem, parece mais um recurso sonoro. Angela Ro Ro potencializa que a Dama é um animal a mercê da sociedade. Renato Russo potencializa a solidão – num dos melhores momentos da peça, aonde a sensibilidade da personagem vem à tona de forma limpa e coerente. Cazuza potencializa a possibilidade da Dama ser soropositivo.

O teatro de Luiz e André é de excessos. O que é bom, dado a violência com que imprimiram suas visões sobre o conto. Mas é uma faca de dois gumes, pois sobrou pouco espaço para o silêncio, pausas e reflexões. E quando esse respiro ocorre, parece “marcado”, um ato forjado. Seria ótimo se ela debochasse do seu público. Mas não, é o momento “sintam pena de mim”. Puro simulacro. A Dama de Luiz não merece esse momento, ela não recua, ela não dá a cara a tapa, ela não cede. Não pode haver condescendências para sua visão do conto.

E se cair, desaba por completo. Sem recursos cênicos ou cenográficos para ilustrar o momento. A maquiagem de Fernando Pompeu desliza pela pele do ator, numa alusão a uma possível “máscara colorida”. Mas é quando todo o brilho vai embora e vemos o rosa – da flor Dama da Noite? – sombreando o canto do olho da personagem é que pensamos: há uma luz acessa nessa mulher-homem-travesti, ela não é de toda má, há um resquício de esperança, amor, compaixão. Um acerto no layout da personagem.

Agressiva, escrota, violenta, perigosa, maldita, inconveniente, mal educada, vagabunda, são termos que cabem a essa versão menos romantizada do conto de Caio Fernando Abreu. O texto sofreu cortes e pequenas alterações, Luiz foi corajoso ao expor o lado mais repulsivo da personagem, mas faltou o arremate final para que o público a ame ou a odeie. Raspas e restos não há interessa. Não há concessões no mundo da Dama de Luiz, e essa “certeza” a montagem ainda precisa ganhar. A sua violência precisa se estender, mesmo que seja em vão.

Dama da Noite - até 26/08 (o espetáculo volta em outubro no mesmo local, horário e dia da semana)
Espaço Teatro Aberto: Praça dos Andradas - Santos
Sexta às 21h


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