20 de ago de 2011

CRITICA DO ESPETACULO Por Bruno Fracchia para o site Artefatocultural

A Dama da Noite

De autoria do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, Dama da Noite é um conto publicado em 1988, no livro Os Dragões não conhecem o paraíso. Trata-se de um texto muito forte que situa muito bem sua época e continua assustadoramente atual: AIDS, solidão, medo de amar, desilusões, decadência... estes são alguns dos assuntos tratados pelo autor nesta história que, à medida que ia sendo lida, gerava-me diversas imagens e sensações, pois, como apontado por Márcia Costa (na crítica por ela muito bem escrita e também publicada no site do Instituto Artefato Cultural, Dama da Noite “não fala exclusivamente de uma Dama da Noite, mas de todos nós que vivenciamos sentimentos tão comuns”.

Não é só tematicamente que o conto apresenta grande força. Sua contemporaneidade reside também na forma. Posto em primeira pessoa, em linguagem objetiva, sem meias palavras, é impossível o leitor fugir da posição de interlocutor da Dama da Noite; é diretamente com ele que a personagem de Caio Fernando fala, potencializando ainda mais o teor impactante de suas palavras. Li o texto antes de assistir ao espetáculo e, evidentemente, me veio à pergunta: como a montagem, dirigida por André Lehaun, transpõe para o palco este impacto?

Recentemente, ouvi Sérgio de Carvalho, diretor da conceituada Cia. do Latão e professor de Dramaturgia da USP, dizer que não existe adaptação fiel. A partir do momento em que se trata de uma transposição de uma obra de sua linguagem original para outra, é impossível uma adaptação ser fidedigna. Mas quando bem “cometida”, essa “infidelidade” não é “traição”. Pelo contrário, é exatamente neste “ato infiel” que consiste o respeito à obra adaptada. Simplesmente pegar um texto literário e colocá-lo em cena, sem assumir nenhum posicionamento, não é adaptar, mas fazer (“má”) aula de cursinho pré-universitário. E para o bem do teatro, concordando ou não com a leitura da direção, não se pode negar que, em Dama da Noite, estamos diante de uma montagem bem proposta, clara e que, ao assumir com consciência um ponto de vista, não “trai” a obra do autor.

Se o conto é moderno na forma e no conteúdo, André Leahun, através de suas escolhas como diretor, concretiza nos palcos esta modernidade. A transposição livro/palco não é realizada só textualmente. As citações (precisas) das redes sociais Orkut, Facebook e Twitter são bem-vindas, mas sãos recursos menos importantes da adaptação realizada, já que a direção também atualiza a prática cênica. Ainda que alguns recursos audiovisuais fossem utilizados por um ou outro diretor brasileiro do início dos anos 80, esse emprego de tecnologia é altamente contemporâneo. Mas se há três décadas, essa “contemporaneidade” era utilizada em caráter de fruição, aqui temos estes recursos servindo de suporte ao intérprete, reforçando o impacto das palavras do autor junto ao público.

Tão artístico e contemporâneo quanto os recursos audiovisuais, é o espaço em que o espetáculo é apresentado. Para este tipo de trabalho, a sala intimista do Teatro Aberto é muito mais poderosa do que uma grande sala de teatro de palco italiano, que muito mais do que contribuir, iria contra o universo do texto, não escrito para ser admirado, mas para instigar, provocar, levar à reflexão.

Existe sempre o risco da tecnologia se sobrepor ao teatral. Paulo José, em sua biografia, já disse que “toda vez que o teatro tenta se renovar, utilizando outras formas de expressão, esquecendo de por o ator no centro da cena, ele sai perdendo”. Esse é um risco que esta produção corria e que não teve medo de enfrentar. No que agiu muito bem. projeções, trilha sonora, ambientalização... tudo é bem proposto, justificado artisticamente e serve de suporte para quem deve ser e é o centro da cena: o ator.

Em cena, Luiz Fernando Almeida prende o público ao longo de toda a apresentação. Um ator entregue, que se expõe, olhando-nos nos olhos e permitindo que olhemos para dentro de nós. Há momentos de riso, mas não é o riso do Pânico na TV ou do stand up comedy (de má qualidade, como há tantos por aí, graças a epidemia que atinge parte da classe artística. Mas isto é tema para outro conto, como diria Anton Tchekhov).

Tudo é tão bem realizado que, exatamente por ver o nítido potencial da montagem (que já apresenta respeitável grau de qualidade) e perceber que o público não está diante de um processo “morto”, sinto-me com liberdade de sugerir que direção e intérprete experimentem alguns momentos de maior introspecção da personagem. Particularmente, algumas dos momentos em que o espetáculo mais me atingiu foram aquelas em que a atuação estava mais internalizada. Por isso, acredito que esta maior internalização, em alguns momentos, ajudaria a revelar ainda mais a realidade da personagem, fazendo a peça ganhar ainda mais força (caso esteja equivocado, pelo menos uma boa oportunidade de exercício está sendo proposta para um processo que está vivo).

No conto, a personagem é uma mulher. Na peça, um travesti. Essa mudança de sexo da personagem é plenamente cabível e justificada pela montagem. Solidão e desilusão são sentimentos universais. Mas independente da sexualidade da personagem, senti falta de uma imagem do conto que, para mim, é muito marcante: a degradação da personagem.

Sendo mulher ou travesti, o texto comunica um indivíduo degradado. É forte a imagem da personagem em decadência, fora de época mesmo para seu universo de párias sociais. Por essa leitura, senti falta de momentos em que a personagem deixasse escapar, ainda que à contragosto, a sua degradação. Há muita força física em cena, que deve continuar existindo, sem dúvida, mas que se confunde com um vigor físico dado à personagem. Essa “mistura” não favorece a comunicação de um estado de degradação não só de um indivíduo, mas de uma sociedade inteira.

Entretanto, faço apenas observações, ciente de que corro o risco de falar de uma outra peça que não a (bem)dirigida por André Leahun. E como já dito, “não existe adaptação fiel”. O recorte dado pela direção pode não ter querido trabalhar este aspecto do conto, o que não torna a montagem “defeituosa” (como poderiam dizer críticos tradicionais, na postura de “juízes” que consideram sua visão como a única verdadeira). Em suma, temos uma proposta clara (coerente com o que é apresentado em cena), contemporânea, artística e, o mais importante, que dialoga não só com a classe teatral, mas com o público em geral (conforme a temporada do espetáculo com sessões ao meio dia no centro de Santos comprova). Nos tempos atuais, dialogar com o público, sem buscar se vender com o riso barato (e sem trabalho) e a nudez sem vergonha, é um fato admirável.

Dama da Noite nos faz refletir social e artisticamente. Se a proposta é clara, é porque existiu um verdadeiro processo. Pesquisa, imersão, estudo. Conseqüência natural, um espetáculo de qualidade. Teatro não é mágica. É suor. Fica a dica (que Dama da Noite nos deixa com propriedade)

Assim como Meire Love, peça comentada anteriormente, aqui temos mais uma bela referência de uso inteligente das teatralidades contemporâneas. Teatro moderno não é para qualquer público, mas sim coisa para intelectual ver? Está aí Dama da Noite para provar o contrário. Muitas pessoas podem não gostar do espetáculo. Não pela contemporaneidade da peça, mas pelo preconceito contra o tema. Debochar de homossexualismo e transexualismo na TV e no (mal) besteirol pode, agora falar a sério destes temas...

Fosse em São Paulo, estaria a montagem na Vejinha e na Folha. Vida longa a este trabalho! A André, Luiz Fernando e toda equipe de Dama da Noite, meu muito obrigado pela experiência.



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