3 de mar de 2011

Montar o espetáculo porque …

“Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, soma-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto”


O momento da cena artística contemporânea é reflexo de nossa sociedade: hoje a batalha de muitos é de fazer respeitar os direitos de todos os cidadãos, dentro de suas individualidades, e democratizar os espaços e os conteúdos das informações e dos bens culturais. Dentro de um país onde a homofobia se manifesta e encontra, lamentavelmente, eco em muitas camadas sociais, o teatro e as artes em geral têm um importante papel social: transitar para além dos estereótipos e desmistificar personagens que, dentro da comunidade, estiveram por anos confinados em guetos com considerações marginalizadas. O imaginário gay carece de fontes e referências

O que encontramos hoje, enquanto produção cultural, seja no teatro, no cinema ou na televisão, são personagens homossexuais retratados a través da ótica do artista heterossexual. Em geral, são figuras caricatas e demasiadamente vinculadas ao humor, além de se dar pela discussão da prática social, – como se fosse esta a única questão latente e vital a ser discutida.

É necessário que o público em geral, não necessariamente a ‘comunidade gay’, possa relacionar-se cotidianamente com todos os indivíduos, para que percamos o conceito de ‘minoria’. Não se trata aqui de montar um espetáculo focado em um público específico, mas sim do contrário: abrir o véu do desconhecido e driblar o preconceito, inovando com a construção de uma personagem não-estereotipada, que tem os mesmo anseios de um trabalhador, um adolescente ou uma dona de casa. Desta forma, o teatro consegue atingir a linguagem do sentimento, que é universal.

Newton Moreno, em seu artigo “A máscara alegre: contribuições da cena gay para o teatro brasileiro, diz que “…finalmente a dramaturgia gay ‘saiu da gaveta’ e veio para assumir seu lugar, com um farto leque de abordagens. Mas uma questão crucial é a compreensão de que a construção da discutida ‘identidade gay’ parece- me infrutífera. Deve-se falar em identidades, sexualidades. Não se pode aprisionar a diversidade.

Ainda mais nesse momento em que a comunidade gay experimenta a visibilidade e se expõe em toda sua complexidade de relacionamentos, práticas e famílias. E, ao se expor, a identidade gay se modifica. Sexualidade em ebulição. Constrói-se e reconstrói-se. Dia a dia, público a público.”

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